Céu de Outono

09/12/2004 18:54



Sei que as pessoas não concordam, sei que acham que sou radical ou que sou diferente. Porém, por mais que tente, não consigo ver o Natal de outra maneira. Pode ser que Freud explique. Vai ver explica mesmo.
Lendo o livro de Arnaldo Jabor, achei uma crônica (que já tinha lido no jornal) que expressa exatamente o que sinto. Sem querer ser pretensiosa, era o que eu gostaria de ter escrito um dia.
Desculpem-me pelo sabor amargo que o trecho lembra. Mas ao andar pelas ruas e shoppings, não consigo identificar nenhum sinal do que realmente representa o Natal.

“ [...] Mas a verdade é que eu nunca fui feliz no Natal. Lembro-me que, nas ceias, ficavam visíveis as frágeis ligações familiares, pálidas amizades entre primos e tios, um certo tédio constrangido depois dos presentes abertos, dissensões e antipatias adivinhadas em abraços frios. Eu olhava aquela família ‘viajando através do tempo”, como um cortejo trôpego para um futuro baldio, eu via a solidão do primo insignificante, do tio fracassado, da tia maluca, dos avós já tristes e ausentes, eu via que, a cada ano, as festas ficavam mais ralas; o eterno presunto caramelado e o peru com apito ficavam mais sozinhos na mesa; os presentes, mais baratos; e nossa fragilidade, mais clara. O destino das famílias é evidente no Natal. Os pobres ficam mais tristes com a dor do pouco que podem das aos filhinhos, e os ricos, mais obstinados em provas a si mesmos que serão felizes a qualquer preço. A obrigação da felicidade me enlouquecia. Parentes que eu nunca via me abraçavam com uma forçada ternura, molhada por vinho e uísques misturados, terminando tudo naquela tristíssima saída na madrugada, com crianças chorando ou dormindo no colo, presentes carregados para os carros, berros de “feliz Natal” nas calçadas. Por isso, só me resta o lugar –comum do início: “Natal, Natal – bimbalham os sinos!”...

(Nunca acreditei em Papai Noel. Arnaldo Jabor – O Globo, 23 de dezembro de 2003)

In: Amor é prosa sexo é poesia. Arnaldo Jabor. Editora Objetiva. 2004

enviada por sonia






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 Rio de Janeiro, professora e leitora compulsiva .